Grupos de desabafo nas redes sociais aumentam, mas é saudável expor situações íntimas?

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Por Mariana Ceccon – 14 maio de 2019 – Gazeta do Povo

As comunidades “sem razão” surgiram para relatos bem humorados entre os usuários, mas acabam reunindo desabafos de conflitos, agressões e abusos.

Foi-se o tempo em que procurávamos o bom e velho ombro amigo para chorar nossas mágoas. Agora, com alguns cliques na barra de pesquisa de qualquer rede social, podemos encontrar centenas de grupos para desabafar sobre os problemas e milhares de pessoas disponíveis para te aconselhar.

De mães solteiras a viúvas, usuários de medicamentos específicos ou seguidores de dietas restritivas, até ansiosos, depressivos e com ideações suicidas. Seja lá qual for o problema, a internet pode apresentar pessoas que estão passando pelo mesmo problema.

A designer de moda Sarah Prado, 30 anos, administra um desses grupos para desabafo. Inicialmente ela juntou amigos para relatar casos bem humorados do que batizou de “parentes que não têm razão”.

Os clássicos familiares que saem das festas levando marmita, até aquele cunhado que aparece no almoço de domingo e fica para o café da tarde. Não esperava, no entanto, que em pouco mais de um mês conseguiria juntar cerca de seis mil pessoas para desabafar sobre conflitos familiares generalizados.”

“A ideia inicial era dar risada, mas de repente me vi com uma responsabilidade grande, porque começaram a surgir os relatos de abusos, brigas e agressões. E aí veio essa necessidade de acolher essas pessoas”, contou.
Para tentar lidar com casos em que os usuários relatam até intenções suicidas, a designer conta com a ajuda de outros membros da comunidade, para oferecer comentários positivos e aconselhar a procura de psicólogos.

“Quando surgiram as primeiras histórias mais pesadas, fiquei receosa de apagar o post e falar para a pessoa procurar algum profissional. O medo é que aquela pessoa não se sinta acolhida do jeito que esperava”, relatou.

“Mas acredito que os grupos são válidos, nesse sentido. Participo de outros onde as pessoas pedem fotos de animais de estimação, em uma tentativa de aliviar uma crise de ansiedade ou depressão, por exemplo. E nesses casos, 90% dos usuários são receptivos e falam coisas positivas”, finalizou.”

A mestre em psicologia Andrea Paula dos Santos Lara chama atenção justamente para a necessidade de uma moderação profissional para esses grupos terem um impacto positivo. Para a especialista, os grupos online podem se assemelhar a outras tantas reuniões de autoajuda, como os Alcóolicos Anônimos ou os voluntários de Centro de Valorização da Vida.

“Juntar-se a um grupo para dividir experiências e procurar no outro um apoio não é uma coisa ruim em si. O problema é quando não há um profissional da área de saúde moderando esse debate, vetando comentários improdutivos ou nocivos”, explicou.

“Temos que ter a consciência de que as pessoas estão vulneráveis e quando colocamos algo em um grupo de 6 mil pessoas, por exemplo, estamos sujeitos a receber conselhos bons, mas também não sabemos quem está do outro lado da tela. Podemos ter também o contrário, pessoas que fazem comentário tirando sarro, dando maus conselhos e até mal intencionadas, que induzem ao suicídio, por exemplo, em casos mais graves. Definitivamente, as pessoas não sabem o perigo que correm ao se expor”.